Perturbações do Espetro do Autismo e a utilização do Cordão Umbilical no seu tratamento

Joanne Kurtzberg, pioneira no uso do sangue do cordão umbilical em transplantação hematopoiética como alternativa aos transplantes de medula óssea, em 2018, apresentou resultados de um ensaio clínico fase I aberto, em que avaliou a segurança e a viabilidade de uma única infusão intravenosa de sangue de cordão umbilical autólogo (da própria criança), assim como a variação de sensibilidade de várias ferramentas de avaliação da PEA 6. Vinte e cinco crianças, com idades compreendidas entre os 2 e os 6 anos, com diagnóstico confirmado PEA e com unidades de sangue de cordão umbilical criopreservadas em bancos qualificados participaram neste estudo.

Este estudo demonstrou que a infusão intravenosa de sangue autólogo do cordão umbilical em crianças com PEA é segura, viável e bem tolerada uma vez que, ao longo dos 12 meses de estudo, não houve a ocorrência de qualquer efeito adverso. Após avaliações clínicas, os autores também observaram uma diminuição da gravidade geral dos sintomas de autismo, uma melhoria em medidas padronizadas de vocabulário e em medidas de atenção sustentada (rastreamento ocular após estímulos sociais). Os pais destas crianças também relataram melhorias significativas no seu comportamento, assim como em habilidades de comunicação social.

No seguimento do estudo anterior, a doutora Joanne Kurtzberg e a sua equipa desenvolveram outro ensaio clínico aleatorizado de fase II em que foram avaliados a segurança e as alterações nas habilidades sociais e de comunicação em crianças com PEA cujos resultados saíram no passado ano 2020 7. Este foi um estudo de ocultação dupla em que nem as crianças e pais, nem os profissionais de saúde souberam se estavam a receber placebo (substancia inócua que não confere qualquer tipo de efeito) ou sangue do cordão umbilical. Foram incluídas 180 crianças diagnosticadas com PEA com idades compreendidas 2 e 7 anos. As crianças foram divididas em três grupos: um grupo de 56 crianças que receberam uma única infusão de sangue do cordão umbilical autólogo, um segundo grupo de 63 crianças em que foi administrada uma única infusão de sangue do cordão umbilical alogénico (não do próprio), e o terceiro grupo com 61 crianças que receberam o placebo, sendo o grupo controlo 7.

Numa análise geral, 6 meses após a infusão, vários parâmetros avaliados como comunicação não apresentaram melhorias significativas mas sim uma tendência para tal. Segundo Duc M. Hoang 8 e os seus colegas, o facto de não se terem observado melhorias significativas gerais pode ter duas justificações: dose baixa de células CD34+ infundidas ou o facto do período de acompanhamento ter sido apenas de 6 meses. Este pode ser considerado um período relativamente curto para observar a melhoria de crianças com PEA. Estudos anteriores demonstraram melhorias observadas após 12 e 18 meses de acompanhamento, especialmente na Escala de Avaliação em Autismo na Infância e Escala de Impressão Clínica Global 6.

O facto de vários estudos demonstrarem que a infusão com sangue do cordão umbilical melhora significativamente o comportamento, incluindo habilidades de comunicação e a redução de sintomas clínicos em crianças com PEA, tem levado a que vários investigadores estudassem e tentassem perceber quais as alterações fisiológicas que o tratamento com o sangue do cordão umbilical produz.

Neste contexto, Kimberly Carpenter, investigadora que colabora com a doutora Joanne Kurtzberg, avaliou num ensaio clínico fase I se as melhorias do tratamento com uma única infusão de sangue do cordão umbilical autólogo estavam associadas com alterações simultâneas na conetividade estrutural do cérebro13, o que se confirmou.

Quais os benefícios das Células Estaminais?

O sangue do cordão umbilical apresenta várias características benéficas como baixa imunogenicidade e, portanto, não exigem uma correspondência rigorosa do antigénio leucocitário humano (HLA) como acontece com outras fontes de células hematopoéticas. Para além disso, o cordão umbilical é um desperdício médico e a sua colheita não é invasiva e é completamente segura para a mãe e para o bebé. Uma vez criopreservado, o sangue do cordão umbilical fica prontamente disponível e de fácil acesso. Estas são algumas das maiores vantagens em relação a outras fontes de células mesenquimais, como por exemplo, a medula óssea em que é necessário encontrar um dador compatível e disponível para se submeter a um processo invasivo para doar sangue da medula óssea.

Outros benefícios terapêuticos e promissores do cordão umbilical, além do transplante de células hematopoéticas, é a sua utilização em medicina regenerativa e modulação imunológica. As células mesenquimais do tecido do cordão umbilical estão cada vez mais presentes e próximas de serem consideradas uma ferramenta poderosa na medicina regenerativa e reconstrutiva devido à sua capacidade de auto-renovação e diferenciação.

As células do tecido do cordão umbilical também apresentam uma baixa imunogenicidade (sem necessidade de administração de imunossupressores para se realizar infusão), propriedades imuno-modulatórias (conferindo um ambiente anti-inflamatório), capacidade de “homing” (capacidade de migração para os locais de inflamação apos infusão), produção e libertação de várias moléculas bioativas (fatores de crescimento, citocinas, quimiocinas) que auxiliam na reparação e/ou regeneração de, por exemplo, tecidos cardíacos e tecidos cerebrais.

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O que é o Autismo?

As Perturbações do Espetro do Autismo (PEA), segundo a Associação Americana de Psiquiatria, são consideradas uma síndrome neuro-comportamental com origem em alterações do sistema nervoso central que afeta o desenvolvimento normal da criança 1. A designação de espetro foi atribuída pela variabilidade dos sintomas, desde as manifestações mais leves até às formas mais graves podendo ser distribuídos em três grandes domínios de perturbação: social, comportamental e comunicacional 1. Habitualmente, os sintomas já estão presentes no período precoce do desenvolvimento, no entanto, podem não se manifestar inteiramente até as interações sociais excederem o limite das capacidades da criança, ou podem ser “mascarados” mais tarde pelo uso de estratégias aprendidas 2.

Tabela 1. Informação combinada da incidência de PEA em crianças de 8 anos de 2000 a 2016 em 11 regiões dos Estados Unidos da América. Dados retirados de “ADDM Network 2000-2016 Combining Data from All Sites. Centers for Disease Control Prevention.”

Assim, os sintomas ocorrem nos primeiros três anos de vida causando perturbações clinicamente significativas nas áreas social e ocupacional e são divididos em 2 grupos de critérios de PEA:

1) Dificuldades na comunicação e interação social: incluídas na comunicação verbal e não-verbal,  partilha de emoções (estes défices podem manifestar-se com maior ou menor intensidade)2;

2) Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e/ou atividades marcados por objetos ou temas específicos: incluídas rotinas obsessivas, hiper ou hipo sensibilidade sensorial, entre outros comportamentos 2.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, estima-se que, em todo o mundo, 1 em cada 160 crianças apresenta PEA 3. Em Portugal existe apenas um estudo realizado por Guiomar Oliveira em 2005 que aponta para uma prevalência estimada de cerca de 1 em cada 1000 crianças de idade escolar 4. Contudo, esta estimativa de Portugal e mundial representa um valor médio e a prevalência descrita varia substancialmente entre estudos.

Artigo escrito pela Doutora Andreia Gomes, Responsável pela Unidade de I&D do Laboratório BebéVida

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