Dia Mundial da Luta Contra o Cancro Dia Mundial da Luta Contra o Cancro

Cancro: como é que as Células Estaminais podem fazer a diferença?

A celebração do Dia Mundial do Cancro baseia-se na Carta de Paris, aprovada em 4 de fevereiro de 2000, na Cimeira Mundial Contra o Cancro para o Novo Milénio. O objetivo do Dia Mundial de Luta Contra o Cancro é desmistificar algumas das ideias pré-concebidas sobre o cancro e informar para os fatos reais da doença. É um evento global que une a população em torno da luta contra o cancro, através da sensibilização e educação.

O que é o cancro?

O cancro é uma patologia que pode começar em quase qualquer órgão ou tecido do corpo quando as células anormais crescem descontroladamente. Este crescimento ocorre para além dos seus limites habituais e invade locais adjacentes, podendo espalhar-se para outros órgãos. O último processo é chamado de metastização e é uma das principais causas de morte por cancro. Contrariamente ao que se possa pensar, a maioria dos cancros não resulta de fatores hereditários que passam entre gerações. Segundo a “American Cancer Society”, apenas 5 a 10% dos cancros são hereditários, pelo que, na grande maioria das vezes, o cancro resulta de fatores ambientais, como o meio que rodeia a pessoa e o seu estilo de vida. Portanto, na luta contra o cancro, é muito importante adotar hábitos saudáveis e, ao mesmo tempo, fazer exames de rastreio regulares para detetar eventuais doenças de forma precoce.

O cancro é uma doença profundamente pessoal e um sério problema de saúde em todas as populações, independentemente da riqueza ou do status social. Infelizmente, todos nós temos amigos, família ou conhecidos que viveram este combate, muitas vezes sobrevivendo e, outras vezes, mesmo com muita luta, não conseguindo vencer. Esta doença exerce um tremendo desgaste físico, emocional e financeiro nas pessoas, famílias, comunidades, sistemas de saúde e nos países. É assim de lamentar que a prevalência de cancro se mantenha a crescer globalmente, continuando a exercer uma enorme pressão física, emocional e financeira sobre os pacientes e famílias.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o cancro é a segunda principal causa de morte em todo o mundo, o que contabiliza mundialmente mais mortes do que o HIV/SIDA, tuberculose e malária juntos. Em 2018, 8,1 milhões de pessoas por todo mundo desenvolveram cancro (Figura 1), e 9,6 milhões morreram desta doença (Por outras palavras, uma em cada seis mortes é devido a cancro). Projeta-se que em 2040 esses números possam dobrar. Em Portugal, morrem 70 pessoas por dia com cancro, o que significa que 3 pessoas morrem vítimas da doença a cada hora que passa.

Figura 1. Estimativa das taxas de incidência (normalizada por idade) de todos tipos de cancro em ambos géneros. Fonte: Organização Mundial de Saúde (2020).

A importância da prevenção

A sobrevivência está muito dependente dos sistemas de saúde de cada país, uma vez que em países mais desenvolvidos o rastreio e, por conseguinte, a deteção precoce, tratamento de qualidade e acompanhamento são mais amplos e mais preparados, constituindo ferramentas imprescindíveis para um eficaz combate a esta doença. Portanto, é de salientar a grande importância da prevenção e da deteção precoce. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 40% de todos os cancros podem ser prevenidos e muitos outros podem ser detetados numa fase precoce do seu desenvolvimento e, portanto, tratados e curados. Como tal, a cooperação de todos os intervenientes na saúde das populações é fundamental para tornar o diagnóstico e o tratamento mais acessíveis e eficazes. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, os cancros mais prevalentes são os cancros da mama, próstata, pulmão e colorretal (Figura 2).

 

Figura 2. Estimativa das taxas de incidência (normalizada por idade) de cada tipo de cancro em ambos géneros. Fonte: Organização Mundial de Saúde (2020).

Neste sentido, e porque cada vez mais é essencial a procura e desenvolvimento de novas terapias para o combate desta patologia, inúmeras investigações têm sido desenvolvidas com o objetivo de avaliar o efeito do sangue e do tecido do cordão umbilical.

Como é que as Células Estaminais podem fazer a diferença?

Com a finalidade de aumentar a imunidade de pacientes com cancro e para prevenir recaídas ou para prolongar o tempo de sobrevivência, 130 pacientes diagnosticados com diferentes cancros gastrointestinais em estádios II ou III foram voluntários de um ensaio clínico realizado entre o Hospital Universitário da Universidade Médica da Mongólia Interior e do Hospital de Reabilitação de Ordos (China) em colaboração com a Faculdade de Medicina da “University College London” 1.

Os voluntários foram aleatoriamente distribuídos em dois grupos: um grupo em que foi administrada uma infusão de sangue do cordão umbilical (alogénico) e o segundo grupo sem infusão do sangue do cordão umbilical (grupo controlo).

Este ensaio clínico demonstrou que a infusão do sangue do cordão umbilical aumentou o número de células T e B e promoveu um aumento da doença estável e reduziu significativamente a doença progressiva. Foi, portanto, um resultado muito importante no prognóstico do cancro gastrointestinal. Os autores deste estudo concluíram que a transfusão de sangue do cordão umbilical apresenta efeitos reparadores poderosos nas células e tecidos danificados e podem reconstruir a imunidade prejudicada em pacientes com cancro com imunossupressão 1.

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Leucemia Mieloide Aguda

É também importante referir que o tratamento da leucemia mieloide aguda em pacientes idosos continua a ser um grande desafio. Este é um tipo de cancro que apresenta mau prognóstico em pacientes mais velhos, portanto o desenvolvimento de novas terapias é necessário para o combate a este cancro.

Um estudo desenvolvido em 2017 demonstra pela primeira vez o efeito de células “natural killer” (NK) isoladas de sangue do cordão umbilical nesta patologia em 10 pacientes com idade média superior a 55 anos. Os autores demonstraram que esta terapia é tolerada após quimioterapia de linfodepleção e que as células NK isoladas de sangue do cordão umbilical (alogénico) persistem transitoriamente na medula óssea e sofrem maturação in vivo em células efetoras antileucémicas 2.

Os autores acreditam que esta imunoterapia baseada em células NK do sangue do cordão umbilical pode ser uma terapia adjuvante para diminuir ou erradicar a doença residual mínima persistente em pacientes com leucemia mieloide aguda após quimioterapia intensiva ou tratamento com agentes hipometilantes. Assim, a terapia baseada em células NK isoladas de sangue do cordão umbilical é uma grande promessa para induzir completa remissão em pacientes com leucemia mieloide aguda refratária 2.

Em 2019, um ensaio clínico de fase II com a participação de 25 pacientes com leucemia mieloide aguda com idades entre os 60 e 74 anos avaliou o efeito de uma nova combinação de decitabina (em baixa dose) com citarabina (em dose intermédia) seguida de uma infusão de sangue do cordão umbilical 3. Os resultados deste ensaio demonstraram que o grupo em que foi administrada esta terapia conjunta com o sangue do cordão umbilical (alogénico) obteve uma taxa de sobrevida geral e uma taxa de sobrevida livre de progressão maior que o grupo sem esta combinação 3. Portanto, esta pode ser uma terapia de consolidação ideal para pacientes idosos com leucemia mieloide aguda, demonstrando a importância da utilização do sangue do cordão umbilical, em combinação com outras terapias, no combate a esta patologia.

Para além dos ensaios clínicos, todos os dias são realizados inúmeros estudos em laboratório que avaliam novos potenciais terapêuticos do sangue e do tecido do cordão umbilical em vários cancros.

Cancro da Mama

Relativamente ao cancro da mama, um dos mais incidentes a nível mundial, foi demonstrado que todos os fatores produzidos e libertados pelas células do tecido do cordão umbilical apresentam um efeito citotóxico em linhas celulares de cancro da mama. Isto quer dizer que estes autores demonstraram que o secretoma das células mesenquimais do tecido do cordão umbilical tem um efeito anticancerígeno 4. Outro grupo de investigação, também se debruçando sobre o cancro da mama, demonstrou que os exossomas (vesiculas produzidas e libertadas pelas células mesenquimais do tecido do cordão umbilical), quando incorporados com a molécula miR-148b-3p, podem suprimir a progressão do cancro de mama. Aqui destaca-se a capacidade destas células se dirigirem para a área afetada: “homing”.

Assim, tanto as células como os exossomas produzidos pelas mesmas podem incorporar moléculas que ajudem no combate à doença, tornando possível existir uma terapia dirigida ao local afetado e mais agressiva, uma vez que combina o efeito das células do tecido do cordão umbilical com a molécula incorporada. Desta forma, estes autores destacaram o potencial do exossomas produzidos pelas células mesenquimais do tecido do cordão umbilical contendo miR-148b-3p como uma abordagem terapêutica e promissora para o tratamento do cancro da mama 5.

Cancro do Ovário

Um dos mais letais cancros ginecológicos é o cancro do ovário, devido a diagnóstico tardio e eficácia terapêutica reduzida. O tratamento padrão de cancro de ovário combina cirurgia e quimioterapia.

Apesar de existirem avanços em estratégias de terapia múltipla, o resultado clínico não tem sido significativamente melhorado. Portanto, novas estratégias terapêuticas são necessárias para ajudar no combate a este cancro.

No passado ano 2020, Qi Liu e os seus colegas isolaram os neutrófilos do sangue cordão umbilical (alogénico) e ativaram esses neutrófilos usando LPS e interleucina-8. Ao avaliarem o efeito destes neutrófilos ativados provenientes do sangue do cordão umbilical nas células cancerígenas do ovário, observaram que houve uma inibição a proliferação, migração e invasão e indução da apoptose (morte) de células cancerígenas do ovário 6. Desta forma, este estudo pode lançar luz sobre o potencial da imunoterapia usando neutrófilos derivados de sangue do cordão umbilical nas células cancerígenas no ovário, resultando numa nova estratégia em terapia imunológica para o cancro do ovário.

Cancro da Próstata

Outros estudos in vivo (usando modelos animais) avaliaram os efeitos terapêuticos do cordão umbilical no cancro da próstata. Por exemplo, Norman Ende e a sua equipa avaliaram o efeito de infusão de sangue do cordão umbilical humano em ratinhos com adenocarcinoma da próstata. Os resultados deste estudo mostram que os ratinhos do grupo controlo (não receberam infusão do sangue do cordão umbilical) desenvolveram o tumor muito mais cedo do que os ratinhos tratados com sangue do cordão umbilical. Além disso, a administração intravenosa com sangue do cordão umbilical retardou significativamente a progressão do cancro e também aumentou significativamente o tempo de vida dos animais  7.

Estes são estudos in vitro e in vivo, portanto estudos realizados em modelos celulares e em animais, respetivamente. Contudo, não deixam de ter um papel fundamental ao demonstrar os efeitos benéficos do cordão umbilical. Estes estudos demonstram efeitos importantes do sangue e do tecido do cordão umbilical no combate a vários tipos de cancro. Portanto, são o ponto de partida para o desenvolvimento de ensaios clínicos e que, futuramente, resultam em terapias.

Campanhas Solidárias da BebéVida

O Dia Mundial de Luta Contra o Cancro é um importante dia que se tornou um poderoso movimento que inspira organizações, comunidades e indivíduos a sensibilizar e a agir no sentido de reduzir o impacto global desta doença.

Neste seguimento, a BebéVida apresenta um papel ativo na comunidade através de iniciativas de solidariedade e apoio a esta causa. Um destes exemplos foi a campanha de solidariedade desenvolvida para assinalar o Dia Internacional da Criança com Cancro. Com o valor angariado, a Bebé Vida ofereceu uma cadeira para a Ala Pediátrica do IPO Porto e vai ainda oferecer um Vale para que se possam repor alguns brinquedos para as crianças internadas.

Como o cordão umbilical apresenta um grande valor terapêutico, podendo ser fundamental na terapia de algumas doenças como o cancro, a BebéVida criou um Banco Solidário em 2013 que já permitiu a criopreservação gratuita de mais de 12 amostras de sangue do cordão umbilical. Através do Banco Solidário, várias famílias carenciadas podem usufruir gratuitamente do serviço de criopreservação do sangue do cordão umbilical de bebés cujos irmãos sejam portadores de doenças graves, com potencial indicação para transplante.

Para além disto, a contribuição na ajuda na luta contra o cancro também passa pela sensibilização e alerta para a importância dos cuidados que cada um de nós pode ter para prevenir o aparecimento deste tipo patologia.

Artigo escrito pela Doutora Andreia Gomes, Responsável pela Unidade de I&D da BebéVida

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