A investigação com células estaminais do cordão umbilical continua a abrir novas possibilidades na medicina regenerativa. Um estudo clínico de fase 1, publicado na revista científica Cytotherapy, avaliou a administração intravenosa de células estaminais mesenquimais derivadas do tecido do cordão umbilical em bebés extremamente prematuros com elevado risco de desenvolver displasia broncopulmonar.
A displasia broncopulmonar é uma doença pulmonar crónica que pode afetar recém-nascidos prematuros, sobretudo aqueles que nascem muito antes do tempo, com baixo peso e que necessitam de suporte respiratório ou ventilação mecânica nos primeiros dias de vida. Nestes bebés, os pulmões ainda se encontram em desenvolvimento e podem ser particularmente vulneráveis à inflamação, ao oxigénio e à ventilação necessária para garantir a sobrevivência.
Apesar dos avanços nos cuidados neonatais, continua a existir uma necessidade significativa de novas estratégias que possam ajudar a proteger ou reparar o pulmão imaturo. É neste contexto que as células estaminais mesenquimais, nomeadamente as obtidas a partir do tecido do cordão umbilical, têm despertado interesse na comunidade científica.
O que avaliou este estudo?
O estudo analisou a segurança e a viabilidade da administração de três doses intravenosas sequenciais de células estaminais mesenquimais derivadas do tecido do cordão umbilical em recém-nascidos extremamente prematuros.
Foram incluídos 10 bebés com idade gestacional igual ou inferior a 28 semanas e peso ao nascimento igual ou inferior a 1250 gramas. Todos necessitavam de ventilação mecânica invasiva e apresentavam elevado risco de desenvolver displasia broncopulmonar.
Cada bebé recebeu três administrações intravenosas, com intervalo de sete dias entre cada dose. O objetivo principal dos investigadores não foi demonstrar a eficácia do tratamento, mas sim perceber se esta abordagem era segura, exequível e bem tolerada neste grupo particularmente vulnerável.
Quais foram os principais resultados?
De acordo com os autores, todos os bebés incluídos no estudo receberam as três doses previstas. A primeira administração ocorreu, em média, por volta do 16.º dia de vida.
Durante o período de administração, durante o internamento hospitalar e ao longo do seguimento de dois anos, não foram observadas mortes nem eventos adversos graves relacionados com a infusão das células. Todos os bebés tiveram alta hospitalar.
Embora todos os participantes tenham sido posteriormente diagnosticados com displasia broncopulmonar, os resultados sugerem que a administração repetida destas células foi possível e segura no curto e médio prazo.
Porque é que o tecido do cordão umbilical é tão relevante?
O tecido do cordão umbilical é uma fonte rica em células estaminais mesenquimais. Estas células são estudadas pelo seu potencial imunomodulador, anti-inflamatório e regenerativo, características que as tornam particularmente interessantes em áreas como a medicina pulmonar, neurológica, ortopédica e imunológica.
Ao contrário das células estaminais hematopoiéticas, presentes sobretudo no sangue do cordão umbilical e utilizadas há décadas em transplantes para várias doenças do sangue e do sistema imunitário, as células mesenquimais encontram-se principalmente no tecido do cordão. Por isso, a criopreservação do tecido do cordão umbilical pode representar uma oportunidade importante para acompanhar a evolução da investigação científica nesta área.
O que significa este estudo para o futuro?
Este estudo representa mais um passo na investigação sobre o potencial terapêutico das células estaminais mesenquimais do tecido do cordão umbilical. No entanto, é importante sublinhar que se trata de um ensaio clínico de fase 1, com um número reduzido de participantes e sem grupo de controlo.
Isto significa que os resultados são promissores ao nível da segurança, mas ainda não permitem concluir que esta abordagem seja eficaz no tratamento ou prevenção da displasia broncopulmonar. Para isso, serão necessários estudos maiores, controlados e com avaliação clínica mais alargada.
Ainda assim, a investigação reforça a importância do cordão umbilical como uma fonte valiosa de células com potencial biomédico. Aquilo que durante muito tempo foi descartado após o parto é hoje objeto de estudo em múltiplas áreas da medicina regenerativa.
Criopreservar hoje para acompanhar a medicina do futuro
A criopreservação das células estaminais do sangue e do tecido do cordão umbilical permite conservar um recurso biológico único, recolhido apenas no momento do nascimento.
Embora muitas aplicações ainda estejam em fase experimental, cada novo estudo contribui para compreender melhor como estas células poderão vir a ser utilizadas no futuro.
A decisão de criopreservar é uma escolha informada, feita num momento único: o nascimento. E a ciência continua a demonstrar que o cordão umbilical pode ter um papel cada vez mais relevante na medicina personalizada e regenerativa.
Nota: Este artigo tem finalidade informativa e não substitui o aconselhamento médico. As aplicações clínicas referidas no contexto da displasia broncopulmonar encontram-se em investigação e não devem ser interpretadas como tratamentos aprovados ou garantidos.
Artigo publicado pela equipa BebéVida, a 18 de junho de 2026.
Fonte: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38556960/


