Há uma pergunta que surge com frequência de pais e futuros pais: “Vale mesmo a pena preservar as células do cordão umbilical do meu filho?” É uma pergunta legítima, e a resposta mais honesta que se pode dar é esta: a ciência continua, ano após ano, a encontrar novas razões para dizer que sim.
Três ensaios clínicos distintos — realizados em contextos diferentes, com equipas e metodologias independentes — voltaram a colocar as células estaminais mesenquimais do cordão umbilical (conhecidas como UC-MSCs) no centro das atenções. O denominador comum entre eles é uma doença particularmente difícil de tratar: o lúpus eritematoso sistémico, e a sua forma mais grave, a nefrite lúpica.
Uma doença que ataca o próprio corpo
O lúpus é uma doença autoimune: o sistema imunitário, que deveria proteger-nos, volta-se contra os nossos próprios tecidos. Quando atinge os rins — a chamada nefrite lúpica —, pode comprometer de forma séria e duradoura a função renal. E há um grupo de doentes para quem os tratamentos habituais simplesmente não chegam: são os casos refratários, que não respondem aos imunossupressores convencionais. Para estas pessoas, cada nova alternativa terapêutica representa uma esperança concreta.
O que os três estudos nos mostraram
- Um estudo com 120 doentes de nefritelúpicarefratária (registado como NCT00698191) acompanhou pacientes tratados com UC-MSCs ao longo de um ano. Mais de metade (56,7%) apresentou resposta renal favorável, com poucas recidivas. E há um dado que considero particularmente relevante: os doentes tratados numa fase mais precoce da doença renal tiveram taxas de resposta muito superiores. A mensagem é clara: quanto mais cedo se intervém, melhor o resultado.
- Um ensaio de fase 1 conduzido em Paris, publicado na revistaLancetRheumatology, testou infusões de UC-MSCs em doentes com lúpus grave e refratário. O objetivo principal era a segurança, e os resultados foram tranquilizadores: o procedimento revelou-se seguro ao longo de, pelo menos, um ano de acompanhamento.
- Um ensaio duplamente cego e controlado por placebo, realizado na Indonésia, testou não as células diretamente, mas o seusecretoma— o conjunto de substâncias que as UC-MSCs libertam, com propriedades anti-inflamatórias, antifibróticas e regeneradoras, em doentes com lúpus de atividade moderada. Este tipo de abordagem mostra como a investigação está a explorar diferentes formas de aproveitar o potencial terapêutico destas células, para além da simples infusão.
Três estudos, uma mesma direção
O que mais me impressiona não é nenhum resultado isolado, mas a convergência. Equipas diferentes, em contextos diferentes, com desenhos de estudo diferentes, chegam à mesma conclusão: as células do cordão umbilical têm uma capacidade notável de modular o sistema imunitário, reduzir a inflamação e favorecer a regeneração dos tecidos: com um perfil de segurança consistentemente favorável.
Isto não significa que estejamos perante uma cura milagrosa. São ainda necessários mais ensaios, com mais doentes e mais tempo de seguimento, antes de estas terapias se tornarem prática clínica generalizada.
Porque é que isto nos diz respeito a todos
Mas há algo que estes estudos já nos permitem afirmar com confiança: o cordão umbilical, que durante décadas foi descartado como resíduo biológico, é hoje reconhecido pela comunidade científica internacional como uma fonte valiosa de material terapêutico. E é precisamente por isso que, na BebeVida, continuamos a acreditar que preservar estas células é investir num recurso que a medicina do futuro — cada vez mais próxima do presente — poderá vir a precisar.
A decisão de preservar é sempre pessoal e deve ser tomada com informação clara e atualizada. É esse o compromisso que assumimos, todos os dias, com as famílias que confiam em nós.
Estudos de referência
- Zheng Y, et al. “Allogeneic umbilical cord-derived mesenchymal stromal cells for treatment of refractory lupus nephritis: a real-world study.” Stem Cell Research & Therapy, 2026
- Farge D, et al. “Allogeneic umbilical cord-derived mesenchymal stromal cells as treatment for systemic lupus erythematosus: a single-centre, open-label, dose-escalation, phase 1 study.” Lancet Rheumatology, 2025
- Nurudhin A, et al. “Umbilical cord mesenchymal stem cell-derived secretome as a potential treatment for systemic lupus erythematosus: A double-blind randomized controlled trial.” Narra J, 2025


