Um estudo clínico publicado em novembro de 2025 na revista científica Stem Cells Translational Medicine avaliou a segurança e o potencial terapêutico das células estaminais mesenquimais derivadas do tecido do cordão umbilical em pessoas com sequelas neurológicas provocadas por um acidente vascular cerebral isquémico.
Os resultados são encorajadores e reforçam o interesse da investigação em novas terapias celulares para apoiar a recuperação após um acidente vascular cerebral. No entanto, trata-se ainda de uma abordagem experimental, que necessita de ser confirmada através de estudos clínicos de maior dimensão.
O que é um AVC isquémico?
O acidente vascular cerebral isquémico ocorre quando o fluxo de sangue para uma determinada zona do cérebro é interrompido, geralmente devido à presença de um coágulo. Sem oxigénio e nutrientes suficientes, as células cerebrais podem sofrer danos em poucos minutos.
Dependendo da área afetada e da gravidade da lesão, o AVC pode deixar sequelas ao nível do movimento, equilíbrio, linguagem, memória, visão e capacidade para realizar as atividades quotidianas.
Após a fase aguda, a reabilitação através de fisioterapia, terapia ocupacional e terapia da fala desempenha um papel essencial. Contudo, ainda existe uma grande necessidade de encontrar tratamentos que possam apoiar diretamente a recuperação neurológica.
Porquê estudar células mesenquimais do cordão umbilical?
As células estaminais mesenquimais podem ser obtidas a partir de diferentes tecidos, incluindo o tecido do cordão umbilical.
Estas células têm despertado interesse na medicina regenerativa devido às suas propriedades anti-inflamatórias, imunomoduladoras e regenerativas. Em vez de substituírem diretamente as células cerebrais danificadas, acredita-se que possam libertar moléculas e fatores de crescimento capazes de:
- Reduzir a inflamação;
- Proteger as células nervosas;
- Promover a formação de novos vasos sanguíneos;
- Favorecer os mecanismos naturais de reparação dos tecidos;
- Criar um ambiente mais favorável à recuperação neurológica.
Foi com base neste potencial que os investigadores avaliaram a utilização de células mesenquimais do cordão em pessoas com sequelas de AVC isquémico.
Como foi realizado o estudo?
O ensaio clínico de fase II incluiu 32 participantes, com idades entre os 40 e os 75 anos, que se encontravam numa fase subaguda ou crónica da recuperação — entre sete dias e 24 meses após o AVC.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente por duas formas de administração das células:
- Administração intravenosa, através de uma veia;
- Administração intratecal, diretamente no canal vertebral.
Em ambos os grupos foram administradas células mesenquimais provenientes do cordão umbilical, numa dose de 1,5 milhões de células por quilograma de peso corporal. Cada participante recebeu duas administrações, com um intervalo de três meses.
Todos os participantes realizaram também um programa de reabilitação constituído por 30 sessões adaptadas às suas necessidades, incluindo fisioterapia, terapia ocupacional e terapia da fala.
Os resultados foram comparados com os de um grupo de 16 doentes com características semelhantes, que recebeu apenas o programa de reabilitação. Este grupo de comparação foi constituído através do emparelhamento dos participantes por idade, sexo e gravidade das sequelas, não tendo sido aleatorizado da mesma forma que os grupos tratados.
Quais foram os principais resultados?
Durante os 12 meses de acompanhamento, não foram registados eventos adversos graves relacionados com a administração das células.
A via intravenosa apresentou menos efeitos adversos associados ao procedimento. No grupo que recebeu as células por via intratecal foram observados mais casos de dor e cefaleias, relacionados com o próprio método de administração.
Aos seis meses, os participantes que receberam as células por via intravenosa apresentaram melhorias significativas em diferentes parâmetros, incluindo:
- Redução dos défices neurológicos;
- Maior independência funcional;
- Melhoria da qualidade de vida.
Estas melhorias foram observadas quando os resultados foram comparados com os do grupo que realizou apenas reabilitação.
Aos 12 meses, tanto o grupo tratado por via intravenosa como o grupo tratado por via intratecal apresentaram melhorias significativas em comparação com o grupo de controlo.
Apesar de os investigadores terem colocado inicialmente a hipótese de a administração intratecal poder ser mais eficaz, o estudo não encontrou diferenças estatisticamente significativas entre as duas vias. A administração intravenosa destacou-se, contudo, por ser menos invasiva e apresentar menos efeitos adversos relacionados com o procedimento.
O que significam estes resultados?
Os resultados sugerem que as células estaminais mesenquimais derivadas do cordão umbilical podem ser administradas com segurança e poderão contribuir para a recuperação neurológica e funcional após um AVC isquémico.
O estudo também mostra que a via intravenosa pode constituir uma alternativa particularmente interessante, por ser mais simples, menos invasiva e ter demonstrado melhorias mais precoces em alguns dos parâmetros analisados.
No entanto, estes dados devem ser interpretados com prudência. O número de participantes foi reduzido e o grupo de comparação foi constituído por emparelhamento, em vez de resultar de uma distribuição totalmente aleatória com placebo. Não é, por isso, possível concluir que esta abordagem seja já um tratamento comprovado para as sequelas de AVC.
Um caminho que continua em investigação
Serão necessários estudos clínicos maiores, com grupos de controlo aleatorizados, diferentes doses e períodos de acompanhamento mais longos para confirmar a segurança e a eficácia desta terapia.
A investigação deverá ainda procurar perceber quais os doentes que poderão beneficiar mais, qual o momento mais adequado para administrar as células e quantas administrações serão necessárias.
Embora permaneça experimental, este estudo representa mais um passo na investigação das células estaminais mesenquimais do cordão umbilical e do seu possível contributo para a medicina regenerativa e para a recuperação de lesões neurológicas.
As terapias celulares descritas encontram-se em investigação e não constituem atualmente um tratamento aprovado para as sequelas de AVC.
Notícia publicada pela equipa BebéVida, a 30 de julho de 2026.
Fonte: Nguyen LT, et al. Stem Cells Translational Medicine, 2025. PMID: 41277536.


