O que a ciência está a descobrir — e o que isso significa para si
Quando nasce um bebé, o cordão umbilical é cortado e, na maioria dos casos, descartado. Parece não ter mais utilidade. Mas a ciência está a revelar algo surpreendente: este tecido contém células com um potencial terapêutico extraordinário, capaz de transformar o tratamento de doenças graves como o mieloma múltiplo.
Mas o que é o mieloma múltiplo?
O mieloma múltiplo é um cancro do sangue. Afeta as células plasmáticas — um tipo de glóbulo branco responsável por produzir anticorpos que nos protegem de infeções. Quando estas células se tornam malignas, multiplicam-se de forma descontrolada na medula óssea, o tecido esponjoso que existe dentro dos nossos ossos.
O resultado pode ser dor óssea intensa, fraturas, anemia, cansaço extremo, infeções frequentes e problemas nos rins. É uma doença que afeta sobretudo pessoas com mais de 60 anos e que, apesar dos avanços médicos das últimas décadas, continua sem cura definitiva para a grande maioria dos doentes.
O que tem o cordão umbilical a ver com isto?
O cordão umbilical não é apenas o “cabo” que liga o bebé à placenta. É um tecido rico em células muito especiais, de dois tipos diferentes — e ambos estão a ser estudados como armas contra o mieloma múltiplo.
O primeiro tipo são as chamadas células estaminais mesenquimais — células com uma capacidade notável: conseguem “farejar” tumores e migrar até eles. Os cientistas estão a aproveitar esta característica para as transformar em pequenos “veículos de entrega”, carregados com medicamentos que combatem diretamente as células cancerígenas, libertando-os exatamente no local certo, em vez de os dispersar por todo o organismo.
Um estudo publicado em 2025 na Stem Cell Research & Therapy (1) mostrou que estas células, depois de modificadas em laboratório, conseguiram migrar até aos tumores em modelos animais, libertar continuamente um agente terapêutico durante semanas, destruir células de mieloma de forma seletiva e fazê-lo sem causar danos nos órgãos saudáveis. O corpo dos animais tratados não rejeitou estas células — o que é fundamental para que a terapia funcione.
O segundo tipo são as células NK — abreviatura de natural killer, ou seja, “assassinas naturais”. São células do sistema imunitário cuja função é detetar e destruir células anormais, incluindo células cancerosas. O sangue do cordão umbilical é particularmente rico nestas células, e a investigação revelou algo importante: as células NK do cordão umbilical são mais agressivas contra as células de mieloma do que as células equivalentes retiradas de adultos.
Um estudo publicado em Oncoimmunology (2) avaliou o efeito destas células em amostras de medula óssea de 18 doentes com mieloma. As células NK do cordão umbilical destruíram as células cancerígenas de forma muito eficaz — mesmo sem qualquer medicamento adicional. Quando as células NK de adultos foram combinadas com um anticorpo já usado na prática clínica, o daratumumab, os resultados foram semelhantes.
Porque é isto importante para as famílias?
Por duas razões principais.
A primeira é a esperança terapêutica. Estas descobertas abrem portas a tratamentos mais eficazes e com menos efeitos secundários para uma doença que ainda hoje é muito difícil de tratar. Não estamos a falar de curas imediatas, a ciência precisa de tempo e de ensaios clínicos, mas de uma direção promissora que pode mudar vidas nas próximas décadas.
A segunda razão é mais imediata e está ao alcance de qualquer família que esteja à espera de um bebé: a decisão sobre o que fazer com o cordão umbilical após o parto.
Uma decisão que começa na sala de parto
Ao longo do tempo que tenho estado à frente de um laboratório de criopreservação, tenho acompanhado de perto a evolução desta área — e também a evolução da consciência das famílias relativamente ao valor do cordão umbilical. Hoje, as famílias chegam informadas, fazem perguntas pertinentes e percebem, cada vez mais, que a decisão que tomam na sala de parto pode ter consequências muito além daquele momento.
Criopreservar o sangue e o tecido do cordão umbilical é, no fundo, guardar uma porta aberta. Não é uma garantia de cura, e qualquer profissional sério será sempre honesto quanto a isso. É antes uma decisão de precaução, tomada num momento único e irrepetível, numa altura em que a medicina regenerativa e a imunoterapia avançam a um ritmo verdadeiramente sem precedentes.
As famílias que tomam esta decisão não estão a comprar certezas. Estão a preservar possibilidades — para o seu filho, para si próprias e, indiretamente, para a ciência que todos nós precisamos que avance. Porque cada amostra preservada é também um tijolo nesta construção coletiva. E os resultados das investigações e que são divulgados são prova de que essa construção está bem viva.
O cordão umbilical nasce com cada criança. O que fazemos com ele depende de nós.
Referências
- Xiong M, Kong C, Lu Y, et al. Construction of tetravalent bispecific Tandab (CD3/BCMA)-secreting human umbilical cord mesenchymal stem cells and its efficiency in the treatment of multiple myeloma. Stem Cell Research & Therapy. 2025;16:69. https://doi.org/10.1186/s13287-025-04212-w
- Reina-Ortiz C, Constantinides M, Fayd-Herbe-de-Maudave A, et al. Expanded NK cells from umbilical cord blood and adult peripheral blood combined with daratumumab are effective against tumor cells from multiple myeloma patients. Oncoimmunology. 2020;10(1):e1853314. https://doi.org/10.1080/2162402X.2020.1853314


