O sangue do cordão umbilical continua a ser tratado, no imaginário comum, como um “extra” do parto — algo que se guarda por precaução, com uma probabilidade remota de alguma vez ser preciso. Os dados científicos mais recentes contam uma história bem diferente, e vale a pena olhar para ela com atenção.
Há avanços que, vistos de fora, parecem notícias pontuais, mas que resultam de décadas de trabalho persistente e apontam para uma mudança real na forma como se tratam doentes. O sangue de cordão umbilical é um dos melhores exemplos disso.
Compatibilidade: uma vantagem científica com um impacto social
A razão pela qual o sangue de cordão umbilical merece mais investimento e mais atenção pública não é sentimental. É científica, e tem um nome preciso: compatibilidade.
As células estaminais do sangue de cordão não exigem uma correspondência genética tão rigorosa entre dador e recetor como as células de medula óssea. Na prática, isto significa que uma unidade de cordão umbilical consegue, muitas vezes, tratar doentes para quem nunca se encontraria um dador de medula compatível.
Esta vantagem técnica traduz-se diretamente numa vantagem de equidade. Os registos internacionais de dadores de medula óssea foram construídos, historicamente, sobre populações de ascendência europeia. Doentes de outras origens étnicas — que estatisticamente têm perfis genéticos mais raros nesses registos — enfrentam há décadas dificuldades desproporcionadas em encontrar um dador compatível.
O sangue de cordão umbilical não resolve este problema por inteiro, mas atenua-o de forma muito significativa. Não é um detalhe técnico menor; é uma das razões mais fortes para investir mais nesta área.
O impacto na sobrevivência de doentes com leucemia
Não se trata apenas de potencial teórico. Em abril de 2023, a FDA aprovou o omidubicel, um produto de sangue de cordão umbilical expandido em laboratório — multiplicando por 50 a 100 vezes o número de células estaminais disponíveis numa única unidade.
Os resultados do ensaio de fase 3 são notáveis: o tempo médio até à recuperação de neutrófilos reduziu de 22 para 12 dias, e a taxa de infeções nos primeiros 100 dias baixou de 60% para 39% — uma diferença com peso real nas semanas críticas que se seguem a um transplante.
Vale a pena destacar que 44% dos doentes incluídos naquele ensaio eram não caucasianos — exatamente a população que mais historicamente ficou para trás nos registos de dadores. Um programa de acesso alargado, publicado em 2025, confirmou estes benefícios fora do ambiente controlado do ensaio, e um estudo do National Institutes of Health, divulgado em dezembro de 2025, relatou uma taxa de sobrevivência de 94% em doentes com anemia aplásica grave tratados com esta mesma tecnologia.
É medicina que já está a acontecer, agora, e que continua a expandir-se para novas doenças.
O caso que ainda não recebeu a atenção que merece
Há um caso que merece ser mais debatido fora dos círculos científicos. Em 2022, foi anunciada a remissão duradoura do VIH numa mulher nos Estados Unidos, tratada simultaneamente de leucemia mieloide aguda.
A estratégia combinou células de um familiar adulto com sangue de cordão umbilical portador de uma mutação rara no gene CCR5, que impede o VIH de infetar as células do sistema imunitário. Três anos depois de o transplante ter sido realizado, a medicação antirretroviral foi suspensa; meses depois, sem qualquer sinal do vírus, o caso foi anunciado como uma provável cura.
Importa sublinhar, com toda a clareza que os dados permitem, o seguinte: de todas as pessoas atualmente associadas a uma remissão duradoura do VIH após transplante — já nove casos documentados na literatura científica — esta continua a ser a única tratada com sangue de cordão umbilical.
Todos os outros, incluindo o pioneiro “doente de Berlim” (2009) e o “doente de Londres” (2019), foram tratados com medula óssea ou células de sangue periférico de dadores adultos. Isto dificilmente será coincidência. Foi precisamente a maior flexibilidade de compatibilidade do sangue de cordão umbilical que tornou possível encontrar, para esta doente de ascendência mista, uma unidade adequada portadora de uma mutação tão rara — algo que teria sido muito mais difícil de conseguir apenas com dadores adultos.
Um campo ainda em expansão
A mutação CCR5-Δ32 em dose dupla existe em cerca de 1% das pessoas de ascendência europeia, e é ainda mais rara noutras populações. Isto significa que, mesmo com o sangue de cordão umbilical, o universo de unidades utilizáveis para este fim específico continua a ser pequeno. Por isso, é relevante o trabalho já em curso nos Estados Unidos, em Espanha e no Canadá, de construção de bancos dedicados de unidades de cordão umbilical pré-rastreadas para esta mutação.
Em Espanha, este esforço já resultou num inventário com mais de 150 unidades, gerido pela Organização Nacional de Transplantes — um dos maiores bancos deste tipo atualmente em funcionamento no mundo.
Há ainda um desenvolvimento mais recente que merece destaque: casos publicados em 2023 e 2024 — o chamado “doente de Genebra”, que recebeu células sem qualquer mutação no CCR5, e o “próximo doente de Berlim”, publicado na revista Nature já em 2025 — mostraram remissões duradouras do VIH mesmo sem aquela mutação específica.
Se esta descoberta se confirmar de forma mais ampla, o número de unidades de cordão umbilical potencialmente úteis para este tipo de tratamento deixa de estar limitado a uma mutação presente em apenas 1 a 3% dos bancos, alargando-se de forma muito significativa.
Trata-se de uma hipótese em investigação, não de uma certeza — mas é exatamente este tipo de hipótese que tende a redesenhar áreas inteiras da medicina transplantar.
Uma posição com os pés assentes na evidência
Importa gerir expectativas: estes transplantes exigem regimes de quimioterapia intensivos, comportam riscos sérios e só se justificam em doentes que já têm uma indicação clínica independente para transplante, como por exemplo leucemia.
Segundo os próprios autores do caso de Nova Iorque, apenas cerca de 50 pessoas por ano, nos Estados Unidos, reuniriam as condições necessárias para um procedimento semelhante. Não é, hoje, uma opção para a generalidade das pessoas que vivem com VIH.
Ainda assim, a trajetória das últimas duas décadas — da descoberta da mutação CCR5 ao primeiro doente curado em Berlim, até à consolidação atual do sangue de cordão umbilical como alternativa mais compatível e mais equitativa — é clara e consistente. É essa trajetória que sustenta a posição defendida neste texto: o sangue de cordão umbilical deixou de ser um recurso secundário. Merece mais investimento em investigação, mais bancos públicos bem financiados e mais visibilidade pública. Não porque seja uma solução perfeita ou universal, mas porque, cada vez mais, é o recurso que chega onde outros não conseguem chegar.
Referências
- Hsu, J., Van Besien, K., Glesby, M.J. et al. (2023). HIV-1 remission and possible cure in a woman after haplo-cord blood transplant. Cell, 186(6), 1115–1126.
- Persaud, D. et al. (2012). Hematopoietic Cell Transplantation with Cord Blood for Cure of HIV Infections. Biology of Blood and Marrow Transplantation.
- Gaebler, C. et al. (2025). Sustained HIV-1 remission after heterozygous CCR5Δ32 stem cell transplantation. Nature.
- Hendricks, C.L., Mellet, J., Stivaktas, V. et al. (2025). HIV-exposed uninfected umbilical cord blood haematopoietic stem/progenitor cells differ immunophenotypically from those from HIV unexposed umbilical cord blood but have similar expansion and colony-forming properties in vitro. Bone Marrow Transplantation, 60, 897–901.
- Horwitz, M.E., Stiff, P.J., Cutler, C. et al. (2021). Omidubicel vs standard myeloablative umbilical cord blood transplantation: results of a phase 3 randomized study. Blood, 138(16), 1429–1440.
- Duke Cancer Institute (2023). DCI-Led Clinical Trial Leads to FDA Approval of Novel Cord Blood Therapy.
- Targeted Oncology (2025). FDA Approves Omidubicel for Blood Cancers in Need of Transplant.
- National Institutes of Health (2023). Woman potentially cured of HIV using transplant with cord blood stem cells. NIH Research Matters.


