Um estudo clínico publicado em maio de 2026 na revista científica Cell Transplantation avaliou a segurança e os potenciais benefícios da utilização de células estaminais mesenquimais derivadas do cordão umbilical em pessoas com cirrose hepática.
Os resultados demonstraram que a administração destas células foi bem tolerada pelos participantes e permitiram identificar alguns sinais preliminares de melhoria de parâmetros relacionados com a função hepática e a qualidade de vida.
Uma doença com opções terapêuticas limitadas
A cirrose hepática representa uma fase avançada da doença crónica do fígado. Caracteriza-se pela formação progressiva de fibrose, alterações da estrutura normal do órgão e perda da sua capacidade funcional.
Entre as principais causas encontram-se a doença hepática associada ao consumo de álcool, a doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica e as hepatites virais B e C.
Nas fases mais avançadas, a cirrose pode originar complicações graves e, atualmente, o transplante hepático continua a ser uma das principais opções terapêuticas para os casos de doença hepática terminal.
É neste contexto que a medicina regenerativa tem vindo a estudar novas abordagens, incluindo a utilização de células estaminais mesenquimais.
Células estaminais mesenquimais do cordão umbilical
As células estaminais mesenquimais derivadas do cordão umbilical, designadas UC-MSCs, têm despertado interesse científico pelas suas propriedades imunomoduladoras e pela sua possível capacidade de contribuir para processos de reparação dos tecidos.
Estudos pré-clínicos anteriores sugeriram que estas células podem exercer efeitos anti-inflamatórios e antifibróticos, mecanismos particularmente relevantes numa doença caracterizada pela inflamação crónica e acumulação progressiva de tecido fibroso no fígado.
Os investigadores referem ainda que estas células poderão atuar através da modulação da resposta imunitária, redução de mediadores inflamatórios e promoção de mecanismos associados à reparação hepática.
Um ensaio clínico de fase I
O novo estudo correspondeu a um ensaio clínico de fase I, aberto e de braço único, realizado no Vinmec Times City International Hospital, em Hanói, Vietname.
Participaram 20 pessoas com cirrose hepática.
Todos os participantes receberam uma única administração de células estaminais mesenquimais alogénicas derivadas do cordão umbilical, numa dose de:
1 milhão de células por quilograma de peso corporal.
Uma das particularidades deste estudo foi a via utilizada para administrar as células.
Em vez da administração intravenosa convencional, as células foram introduzidas diretamente através da artéria hepática, permitindo a sua administração direcionada para o fígado.
Segundo os investigadores, esta abordagem com células estaminais mesenquimais do cordão umbilical através da artéria hepática ainda tinha sido pouco estudada em pessoas com fibrose ou cirrose hepática.
Acompanhamento durante 12 meses
Os participantes foram avaliados antes da administração das células e posteriormente aos 3, 6 e 12 meses.
Dos 20 participantes inicialmente incluídos, 17 completaram o acompanhamento de 12 meses e foram considerados nas análises exploratórias de eficácia.
Administração considerada segura e bem tolerada
O principal objetivo de um ensaio clínico de fase I é avaliar a segurança de uma nova abordagem terapêutica.
Neste estudo, não foram registados acontecimentos adversos graves relacionados com o procedimento.
Os efeitos adversos observados foram ligeiros e autolimitados, resolvendo-se espontaneamente ou necessitando apenas de tratamento mínimo.
A administração das células através da artéria hepática foi realizada com sucesso em todos os participantes.
Os investigadores consideraram, por isso, que esta forma de administração das células estaminais mesenquimais do cordão umbilical foi tecnicamente viável e bem tolerada neste grupo de doentes.
Aumento dos níveis de albumina
Para além da segurança, o estudo avaliou de forma exploratória possíveis alterações relacionadas com a função hepática.
Um dos resultados mais interessantes foi observado nos níveis de albumina, uma proteína produzida pelo fígado e frequentemente utilizada como indicador da sua capacidade funcional.
Os níveis de albumina aumentaram significativamente aos 3 meses após a administração das células e aos 6 meses após o tratamento.
A diferença foi estatisticamente significativa nos dois momentos de avaliação.
Por outro lado, parâmetros como a bilirrubina, as enzimas hepáticas, a coagulação e a pontuação MELD permaneceram globalmente estáveis ao longo do acompanhamento.
Melhoria temporária na classificação Child-Pugh
Os investigadores avaliaram também a classificação Child-Pugh, utilizada para avaliar a gravidade da doença hepática crónica.
Foi observada uma diminuição significativa desta pontuação aos 3 meses após a administração das células, sugerindo uma melhoria temporária da função hepática.
Contudo, essa diferença não se manteve de forma estatisticamente significativa nos momentos posteriores de acompanhamento.
Por esse motivo, os resultados devem ser interpretados como preliminares e não permitem concluir que a terapia tenha provocado uma melhoria clínica sustentada da cirrose.
Resultados promissores, mas ainda preliminares
Apesar dos resultados positivos relativamente à segurança e de alguns sinais favoráveis observados nos parâmetros clínicos, os próprios investigadores destacam várias limitações importantes.
O estudo envolveu apenas 20 participantes, dos quais 17 completaram o acompanhamento, e não incluiu um grupo de controlo.
Além disso, por se tratar de um ensaio clínico de fase I, o estudo foi concebido principalmente para avaliar segurança e viabilidade, e não para demonstrar definitivamente a eficácia do tratamento.
Desta forma, os resultados não significam que as células estaminais do cordão umbilical constituam atualmente um tratamento comprovado para a cirrose hepática.
São necessários ensaios clínicos controlados, com um maior número de participantes e períodos de acompanhamento mais longos, para confirmar os resultados e determinar o verdadeiro benefício clínico desta abordagem.
O potencial das células do cordão umbilical continua em investigação
Este estudo acrescenta novos dados à investigação internacional sobre o potencial das células estaminais mesenquimais derivadas do cordão umbilical.
As suas propriedades imunomoduladoras, anti-inflamatórias e antifibróticas continuam a ser investigadas em várias áreas da medicina regenerativa.
A investigação científica continua, assim, a revelar novas possibilidades de aplicação das células provenientes do cordão umbilical muito além das utilizações já estabelecidas.


