As células mesenquimais presentes no tecido do cordão umbilical continuam a despertar interesse na área da medicina regenerativa, devido à sua capacidade de produzir moléculas envolvidas em processos como a regeneração dos tecidos, a formação de novos vasos sanguíneos e a modulação da resposta inflamatória.
Um novo ensaio clínico de fase I/II avaliou o potencial de derivados de células estaminais mesenquimais do cordão umbilical no tratamento de úlceras crónicas do pé diabético, uma das complicações mais graves associadas à diabetes.
O estudo, publicado em novembro de 2025 na revista Stem Cell Research & Therapy, apresenta resultados preliminares promissores.
Um desafio no tratamento da diabetes
As úlceras do pé diabético são feridas crónicas que podem surgir em pessoas com diabetes e cuja cicatrização pode ser particularmente difícil.
Em alguns casos, estas lesões não respondem adequadamente aos tratamentos convencionais, aumentando o risco de infeções, hospitalização e, nas situações mais graves, amputação.
Foi precisamente em pessoas com úlceras persistentes e sem resposta satisfatória aos cuidados habituais que os investigadores decidiram testar uma nova abordagem baseada no potencial regenerativo das células do cordão umbilical.
O que foi estudado?
O ensaio clínico incluiu 10 adultos com diabetes tipo 2, com uma idade média de 52,2 anos, que apresentavam úlceras crónicas do pé diabético há uma média de aproximadamente 15 semanas.
Todos tinham lesões que não tinham cicatrizado apesar da utilização dos cuidados convencionais.
Em vez de administrarem diretamente células mesenquimais, os investigadores utilizaram derivados produzidos por células estromais mesenquimais do cordão umbilical, nomeadamente:
- meio condicionado;
- vesículas extracelulares;
- exossomas.
Estes componentes contêm diversas moléculas produzidas e libertadas pelas células, que poderão participar na comunicação celular e em processos relacionados com a regeneração dos tecidos.
A preparação foi administrada através de injeções realizadas em redor das úlceras.
Que resultados foram observados?
Os resultados observados pelos investigadores foram encorajadores.
Todos os 10 participantes alcançaram o encerramento completo das úlceras, com um tempo médio de cicatrização de cerca de 4,2 semanas.
Além disso, durante o período de acompanhamento de 24 meses, os investigadores não registaram recorrência das úlceras nem amputações nos participantes.
A intervenção foi também considerada bem tolerada, não tendo sido registados eventos adversos graves associados ao tratamento.
Porque podem as células do cordão ser interessantes na regeneração de tecidos?
As células mesenquimais do cordão umbilical têm vindo a ser investigadas não apenas pela sua capacidade de diferenciação, mas também pelas substâncias que libertam para o meio envolvente.
Entre estas encontram-se fatores de crescimento, proteínas, moléculas reguladoras e vesículas extracelulares, incluindo exossomas.
Estas moléculas poderão contribuir para mecanismos importantes na cicatrização, como:
- estimulação da formação de novos vasos sanguíneos;
- redução da inflamação;
- comunicação entre diferentes tipos de células;
- promoção da regeneração e reparação dos tecidos.
Por este motivo, existe atualmente um interesse crescente nas chamadas abordagens “cell-free”, nas quais se procuram utilizar os produtos libertados pelas células sem administrar necessariamente as próprias células.
Resultados promissores, mas ainda preliminares
Apesar dos resultados positivos, os próprios autores salientam que este é ainda um estudo numa fase inicial.
O ensaio envolveu apenas 10 participantes, foi realizado num único centro e não incluiu um grupo placebo ou de controlo.
Será, por isso, necessário realizar ensaios clínicos randomizados, controlados e com um número substancialmente maior de participantes antes de ser possível confirmar a eficácia e segurança desta estratégia terapêutica.
Os resultados não significam, assim, que exista atualmente um tratamento estabelecido com derivados de células do cordão umbilical para as úlceras do pé diabético.
Representam, contudo, mais um exemplo das diferentes áreas em que o potencial biológico das células do cordão umbilical continua a ser estudado.
O potencial do cordão umbilical continua em investigação
Este trabalho demonstra também como a investigação relacionada com o cordão umbilical está a evoluir.
Para além da utilização das próprias células estaminais, os cientistas estão cada vez mais interessados nas substâncias produzidas por estas células e na forma como poderão ser utilizadas em futuras terapias regenerativas.
Embora seja ainda necessária muita investigação antes de estas abordagens poderem integrar a prática clínica, estudos como este ajudam a compreender melhor o potencial das células mesenquimais do cordão umbilical e os seus possíveis mecanismos de ação.


