A investigação com células provenientes do cordão umbilical continua a abrir novas possibilidades na medicina. Um estudo publicado em 2026 avaliou células mesenquimais derivadas do tecido do cordão umbilical como parte de uma estratégia terapêutica para uma das complicações mais graves que pode surgir após determinados transplantes de células estaminais hematopoiéticas: a doença do enxerto contra o hospedeiro.
Os resultados são encorajadores e contribuem para aumentar o interesse científico nas células mesenquimais do cordão umbilical, sobretudo pelas suas propriedades imunomoduladoras.
Para os futuros pais, estes avanços são também uma forma de compreender melhor o potencial que a investigação atribui aos diferentes componentes do cordão umbilical — incluindo o sangue e o tecido do cordão — e o motivo pelo qual a sua preservação tem vindo a ser estudada para possíveis aplicações médicas.
O que é a doença do enxerto contra o hospedeiro?
A doença do enxerto contra o hospedeiro, frequentemente conhecida pela sigla GVHD (Graft-versus-Host Disease), é uma complicação que pode ocorrer depois de um transplante alogénico de células estaminais hematopoiéticas.
Nestes transplantes, as células imunitárias provenientes do dador podem reconhecer os tecidos do doente como estranhos e desencadear uma resposta imunitária contra o organismo do recetor.
A GVHD pode afetar vários órgãos, nomeadamente a pele, o fígado e o sistema gastrointestinal. Nas formas mais graves, pode tornar-se uma complicação potencialmente fatal.
O tratamento inicial é habitualmente feito com corticosteroides. No entanto, alguns doentes não respondem adequadamente ou deixam de responder ao tratamento. Nestes casos, fala-se em GVHD resistente ou dependente de corticosteroides, uma situação para a qual continuam a ser procuradas novas opções terapêuticas.
Porque estão a ser estudadas as células mesenquimais do cordão?
O tecido do cordão umbilical é uma fonte rica de células estaminais mesenquimais.
Estas células têm despertado interesse científico devido às suas propriedades imunomoduladoras. Em termos simples, podem interagir com diferentes células do sistema imunitário e ajudar a regular respostas inflamatórias.
Esta característica é particularmente relevante em doenças em que o sistema imunitário se encontra excessivamente ativado, como acontece na GVHD.
As células mesenquimais também têm sido estudadas pela sua possível participação em mecanismos relacionados com a reparação e regeneração dos tecidos.
É importante, contudo, distinguir entre o que já está clinicamente estabelecido e aquilo que permanece em investigação. Muitas das potenciais aplicações das células mesenquimais continuam a ser objeto de estudos clínicos.
Resultados de ensaio clínico publicado em 2026
Em março de 2026, foram publicados na revista científica Stem Cell Research & Therapy os resultados de um ensaio clínico multicêntrico que avaliou uma abordagem terapêutica baseada em células mesenquimais humanas derivadas do cordão umbilical.
O estudo incluiu 54 doentes, com idades entre os 14 e os 68 anos, que apresentavam GVHD aguda com envolvimento gastrointestinal e que eram resistentes ou dependentes de corticosteroides.
Os participantes receberam PLEB001, um produto constituído por células mesenquimais derivadas do cordão umbilical, em associação com uma terapêutica imunossupressora baseada num anticorpo anti-CD25.
O tratamento foi administrado por via intravenosa, duas vezes por semana durante quatro semanas. Nos doentes que apresentavam uma resposta parcial, o tratamento podia ser prolongado por mais quatro semanas.
Que resultados foram observados?
Ao 28.º dia, foi observada uma taxa global de resposta de 63%.
Entre os participantes:
- 55,6% apresentaram uma resposta completa;
- 7,4% apresentaram uma resposta parcial;
- 51,9% mantinham uma resposta completa duradoura, de acordo com os critérios utilizados no estudo.
Ao 56.º dia, a taxa global de resposta era de 51,9%, com 50% dos participantes a apresentarem uma resposta completa.
No que diz respeito à sobrevivência global, os valores reportados foram de aproximadamente:
- 79,6% aos 100 dias;
- 65,8% aos 360 dias.
Os investigadores consideraram igualmente aceitável o perfil de segurança observado, não tendo sido registadas toxicidades associadas à infusão nem acontecimentos adversos graves considerados relacionados com o tratamento.
O que significam estes resultados?
Os resultados são relevantes, mas devem ser interpretados com algum cuidado.
Uma das principais limitações é que todos os participantes receberam as células mesenquimais em associação com a terapêutica anti-CD25. Por isso, este estudo, isoladamente, não permite determinar qual foi a contribuição específica das células mesenquimais para os resultados observados.
Os resultados dão, contudo, continuidade a investigação clínica anterior. Num ensaio de fase II, randomizado e controlado, a combinação de células mesenquimais com terapêutica anti-CD25 tinha demonstrado melhores respostas do que a utilização de anti-CD25 sem as células mesenquimais.
Os resultados observados em doentes com GVHD são promissores e apoiam a continuidade da investigação sobre as propriedades imunomoduladoras das células mesenquimais.
Ao mesmo tempo, são necessários mais estudos para determinar com maior precisão quais os doentes que mais podem beneficiar, qual o papel específico das células mesenquimais e como esta abordagem se compara com outras terapêuticas disponíveis.


