A investigação em torno das células estaminais do sangue do cordão umbilical continua a avançar.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica Pediatrics analisou dados de vários estudos clínicos sobre a utilização de sangue do cordão umbilical em crianças com paralisia cerebral, uma condição neurológica que afeta o movimento, a postura e o desenvolvimento motor.
A paralisia cerebral resulta de uma lesão ou alteração no desenvolvimento do cérebro, geralmente ocorrida antes, durante ou pouco depois do nascimento. Embora existam terapias de reabilitação importantes para melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida, a ciência tem procurado novas abordagens que possam complementar estes cuidados.
Neste contexto, o sangue do cordão umbilical tem sido estudado pelo seu potencial papel na reparação e modulação de processos inflamatórios.
Ao contrário da ideia inicial de que as células teriam de “substituir” diretamente tecido danificado, a investigação atual sugere que estas terapias celulares poderão atuar sobretudo através de mecanismos de sinalização, ajudando a criar um ambiente mais favorável à reparação natural do organismo.
O que analisou este estudo?
O artigo publicado na Pediatrics é uma meta-análise com dados individuais de participantes. Isto significa que os investigadores reuniram e analisaram dados de diferentes estudos clínicos, procurando perceber de forma mais detalhada o efeito do sangue do cordão umbilical em crianças com paralisia cerebral.
No total, foram obtidos dados de 498 participantes, provenientes de 11 estudos. Na análise principal, foram comparadas crianças que receberam sangue do cordão umbilical com crianças do grupo de controlo. O principal parâmetro avaliado foi a função motora grossa, medida através da escala GMFM-66, uma ferramenta usada para acompanhar a evolução motora em crianças com paralisia cerebral.
Quais foram os principais resultados?
Segundo os autores, as crianças tratadas com sangue do cordão umbilical apresentaram uma melhoria média superior na função motora grossa, em comparação com os grupos de controlo, aos 6 e aos 12 meses após a administração. O estudo reportou uma diferença média de 1,36 pontos na escala GMFM-66 aos 6 meses e de 1,42 pontos aos 12 meses.
Outro ponto relevante foi a associação entre a dose celular e o efeito observado. A análise indicou que doses mais elevadas de células nucleadas totais estavam associadas a maiores melhorias na função motora, especialmente em determinados grupos de crianças.
Os autores identificaram ainda que os melhores resultados pareciam ocorrer em crianças mais jovens e com formas mais ligeiras de paralisia cerebral. Esta informação poderá ser importante para o desenho de futuros ensaios clínicos e para compreender melhor quais os grupos que poderão beneficiar mais desta abordagem.
E quanto à segurança?
A segurança é um dos pontos mais importantes quando se fala de terapias celulares. Neste estudo, os autores referem que a taxa de eventos adversos graves foi semelhante entre os grupos tratados e os grupos de controlo. Foi identificado apenas um evento adverso grave definitivamente relacionado com a intervenção, associado a uma reação tratável ao crioprotetor usado na preservação das células.
Ainda assim, os investigadores reforçam a importância da monitorização clínica durante e após a administração, especialmente porque podem ocorrer reações infusionais, mesmo que raras.
O que significa este estudo para as famílias?
Este estudo não significa que o sangue do cordão umbilical seja uma cura para a paralisia cerebral, nem que este tipo de tratamento esteja disponível de forma generalizada para todas as crianças.
No entanto, reforça que esta é uma área de investigação clínica ativa e promissora, com resultados que justificam a continuação de estudos mais robustos.
Os próprios autores sublinham a necessidade de ensaios clínicos adicionais, nomeadamente estudos de fase 3 bem desenhados, para confirmar a segurança e eficácia desta abordagem e apoiar futuras decisões clínicas e regulamentares.
Porque é que este estudo é importante?
O sangue do cordão umbilical contém diferentes tipos de células com potencial interesse terapêutico, incluindo células estaminais e progenitoras hematopoiéticas, células progenitoras endoteliais, células com funções imunomoduladoras e outras populações celulares.
A publicação deste estudo numa revista científica de referência na área pediátrica reforça a importância de preservar e estudar estas células.
Para as famílias, representa mais um exemplo de como a criopreservação do sangue do cordão umbilical pode estar ligada a avanços científicos relevantes, sobretudo em áreas onde ainda existem necessidades clínicas por responder.


