A diabetes tipo 1 é uma das doenças crónicas mais desafiantes do nosso tempo, afetando sobretudo crianças e jovens adultos. Ao contrário da diabetes tipo 2, que está frequentemente associada a hábitos de vida, a diabetes tipo 1 resulta de uma falha do próprio sistema imunitário: o organismo ataca e destrói as células β do pâncreas, as únicas responsáveis pela produção de insulina. O resultado é uma dependência total e vitalícia da insulina exógena. Para estas pessoas e para as suas famílias, a notícia de que o cordão umbilical — colhido no momento do nascimento — pode guardar a chave para novos tratamentos é, no mínimo, esperançosa.
O que torna a diabetes tipo 1 diferente?
Quando falamos de diabetes ao público em geral, há uma confusão frequente entre os dois tipos. A diabetes tipo 2 é muito mais prevalente e está relacionada com resistência à insulina, muitas vezes influenciada pelo estilo de vida. A diabetes tipo 1, por sua vez, é uma doença autoimune: o sistema de defesa do organismo identifica, de forma errada, as células β do pâncreas como inimigos e destrói-as progressivamente. Sem essas células, não há produção de insulina. Não há dose de exercício nem dieta que substitua a injeção diária de insulina. É uma doença que muda por completo a vida de quem a recebe, especialmente quando o diagnóstico chega na infância.
Segundo a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, em Portugal, estima-se que serão mais de 30 000 as pessoas que vivem com diabetes tipo 1, 5 000 das quais serão crianças e jovens. A nível mundial, a Federação Internacional de Diabetes, aponta para mais de 9,5 milhões de pessoas com esta condição, um número que contínua a crescer 1. O tratamento atual, baseado na administração de insulina, controla a doença, mas não a cura. É neste contexto que a investigação com células estaminais do cordão umbilical ganha especial relevância.
O cordão umbilical: muito mais do que um resíduo do nascimento
Durante décadas, o cordão umbilical foi tratado como resíduo hospitalar, descartado minutos após o nascimento. Hoje, sabemos que é uma das fontes mais ricas de células estaminais do organismo humano. O tecido do cordão umbilical contém células estaminais mesenquimais com características únicas: são jovens, altamente adaptativas e apresentam propriedades imunomodulatórias potentes.
O processo de colheita é simples e completamente indolor: realiza-se após o corte do cordão umbilical, sem qualquer risco para a mãe ou para o recém-nascido. As células são depois processadas e armazenadas em bancos especializados, podendo ser conservadas por décadas. O que torna estas células tão interessantes para a investigação é a sua capacidade de se diferenciar em vários tipos de tecido e, sobretudo, de modular a resposta imunitária — uma característica especialmente relevante numa doença autoimune como a diabetes tipo 1.
Como pode o cordão umbilical ajudar na diabetes tipo 1?
A lógica é simples: se a diabetes tipo 1 resulta de um sistema imunitário que ataca as células produtoras de insulina, então uma terapia que “reequilibre” esse sistema ou que ajude a regenerar essas células poderia, em teoria, travar ou mesmo reverter a doença. É exatamente isso que os investigadores estão a explorar com as células estaminais do cordão umbilical.
Existem várias vias de ação estudadas:
- Imunomodulação: as células estaminais mesenquimais do cordão umbilical apresentam a capacidade de suprimir a resposta autoimune que destrói as células β, criando um ambiente imunitário mais tolerante.
- Regeneração pancreática: estas células podem libertar fatores de crescimento que promovem a recuperação das célulasβ danificadas ou estimulam a criação de novas.
- Células T reguladoras: o sangue do cordão umbilical é rico emlinfocitos T reguladores (Tregs), células do sistema imunitário que funcionam como “árbitros”, evitando que o organismo se ataque a si próprio.
- Preservação do período de“lua de mel”: nos primeiros meses após o diagnóstico, muitos doentes passam por uma fase em que o pâncreas ainda produz alguma insulina. A investigação sugere que a infusão de células do cordão pode prolongar este período.
O que dizem os ensaios clínicos?
A investigação nesta área tem crescido de forma notável. Com base nos dados de registo internacional, existem atualmente a decorrer, vários ensaios clínicos focados no uso de células do cordão umbilical para tratar a diabetes tipo 1. Entre os mais relevantes destacam-se: a infusão de células estaminais mesenquimais derivadas do cordão umbilical em crianças recém-diagnosticadas2, atualmente a recrutar; a transplantação sequencial de células do cordão umbilical seguida de ilhotas pancreáticas em crianças com imunodeficiência3; e o uso de linfócitos T reguladores do sangue do cordão umbilical para travar a resposta autoimune, numa abordagem testada em dois ensaios distintos 4,5.
Os resultados preliminares são encorajadores. Um estudo piloto já concluído6 testou a infusão autóloga do próprio cordão da criança combinada com vitamina D e ómega-3, com o objetivo de prolongar o período em que o pâncreas ainda produz alguma insulina. Outro ensaio completado7 demonstrou que a infusão de células da Geleia de Wharton em adultos com diabetes tipo 1 é segura e bem tolerada. A maioria dos estudos está ainda em fases iniciais, mas a direção é promissora.
Benefícios, riscos e o que ainda não sabemos
Os potenciais benefícios são consideráveis: reduzir ou eliminar a necessidade de insulina exogéna, travar a progressão da destruição pancreática e melhorar de forma duradoura o controlo da glicemia. Em termos de segurança, os estudos realizados até à data não registaram efeitos adversos graves, o que é encorajador.
Contudo, importa ser honesto sobre as limitações. A maioria dos ensaios tem amostras reduzidas. Os resultados a longo prazo ainda não estão completamente estabelecidos. E há questões práticas relevantes: nem todas as famílias preservam o cordão umbilical. Qualquer decisão de tratamento deve ser sempre discutida com uma equipa médica especializada.
Uma mensagem de esperança fundamentada
Para as famílias que lidam diariamente com a diabetes tipo 1, cada nova linha de investigação tem um peso emocional imenso. E esta, em particular, tem uma característica que a torna única: o “medicamento” pode ter sido recolhido no próprio dia em que a vida começou.
A ciência do cordão umbilical na diabetes tipo 1 ainda está na sua fase emergente, mas os alicerces são sólidos e os ensaios clínicos em curso são promissores. O caminho até a uma terapia amplamente disponível poderá demorar anos, mas a direção é clara. Enquanto isso, a melhor coisa que as famílias podem fazer é manter-se informadas, acompanhar os avanços com os seus médicos e, se ainda não o fizeram, considerar a preservação do cordão umbilical em gestações futuras.
A diabetes tipo 1 não tem ainda cura. Mas cada ensaio clínico que avança, cada criança que participa num estudo, cada investigador que persiste é um passo em direção a um futuro onde esta doença seja, finalmente, controlável na sua raiz.
Referências
- Global type 1 diabetes prevalence, incidence, and mortality estimates 2025: Results from the International diabetes Federation Atlas, 11th Edition.
- UCMSCs Combined With Standard Therapy for the Treatment of Newly Diagnosed Type 1 Diabetes. NCT06407297. 2024.
- Sequential Transplantation of UCBSCs and Islet Cells in Children and Adolescents With Monogenic Immunodeficiency T1DM. NCT03835312. 2019.
- Safety and Efficacy of Umbilical Cord Blood Regulatory T Cells Plus Liraglutide on Autoimmune Diabetes. NCT02932826 .
- Umbilical Cord Blood Infusion to Treat Type 1 Diabetes. NCT00989547.
- Cord Blood Plus Vitamin D and Omega 3s in T1D. NCT00873925.
- Whartons Jelly Derived Mesenchymal Stromal Cell Treatment of Adult Patients Diagnosed With Type I Diabetes. NCT03406585.


