Novo ensaio clínico australiano avalia a segurança de uma terapia celular em recém-nascidos prematuros com lesões cerebrais graves
Investigadores australianos estão a estudar uma nova abordagem que poderá, no futuro, contribuir para a proteção do cérebro de bebés prematuros. O ensaio clínico, denominado ALLO Trial, utiliza células provenientes do sangue do cordão umbilical doado por famílias após o nascimento de bebés de termo.
O projeto reúne investigadores da Monash University, Monash Health e Hudson Institute of Medical Research e está atualmente a recrutar participantes para avaliar a segurança e a viabilidade deste tratamento celular.
Porque estão os bebés prematuros mais vulneráveis?
Os bebés que nascem prematuramente apresentam um risco acrescido de desenvolver lesões cerebrais, que podem estar associadas a consequências neurológicas permanentes, incluindo dificuldades no desenvolvimento e paralisia cerebral.
Apesar dos progressos verificados nos cuidados intensivos neonatais, as opções atualmente disponíveis são sobretudo de suporte. Ainda não existem terapias aprovadas especificamente destinadas a contrariar ou reparar os danos cerebrais provocados pela prematuridade.
É neste contexto que os investigadores estão a explorar o potencial das células do sangue do cordão umbilical.
Em que consiste o ALLO Trial?
O ALLO Trial é um ensaio clínico de fase I, aberto e realizado num único grupo de participantes no Monash Children’s Hospital, no estado de Victoria, na Austrália.
O estudo destina-se a bebés prematuros com lesões cerebrais graves identificadas através de exames de neuroimagem. Poderão ser incluídos bebés nascidos antes das 28 semanas ou entre as 28 semanas e as 36 semanas e seis dias de gestação, de acordo com os critérios estabelecidos pelos investigadores.
Os bebés elegíveis recebem uma única infusão intravenosa de células provenientes de sangue do cordão umbilical armazenado num banco público australiano. A administração é realizada após a confirmação da elegibilidade, dependendo também da estabilidade clínica do bebé e da ausência de infeção ativa.
Neste ensaio são utilizadas células de um dador não relacionado, ou seja, trata-se de uma abordagem alogénica. Esta solução permite recorrer a unidades previamente doadas e armazenadas quando não foi possível recolher uma quantidade suficiente de sangue do cordão do próprio bebé prematuro.
Como poderão estas células ajudar?
As células presentes no sangue do cordão umbilical têm sido estudadas pelas suas propriedades:
- anti-inflamatórias;
- imunomoduladoras;
- neuroprotetoras;
- de apoio aos mecanismos naturais de reparação dos tecidos.
Os investigadores pretendem perceber se estas características poderão ajudar a reduzir a inflamação e a proteger o cérebro ainda em desenvolvimento dos recém-nascidos prematuros.
O estudo surge na continuidade de investigação anterior da mesma equipa, que avaliou a utilização de células obtidas a partir do sangue do cordão do próprio bebé. Nesse estudo, a recolha e a administração das células foram consideradas viáveis e seguras em muitos dos casos analisados, justificando a continuação da investigação.
Uma investigação promissora, mas ainda numa fase inicial
Embora esta área de investigação seja promissora, é importante salientar que o ALLO Trial é um ensaio clínico de fase I. O seu principal objetivo é avaliar a segurança e a viabilidade do procedimento, e não comprovar definitivamente a eficácia do tratamento.
Ainda não é possível afirmar que a administração destas células previne lesões cerebrais, paralisia cerebral ou outras complicações neurológicas associadas à prematuridade.
Os resultados deste estudo poderão, contudo, fornecer informação essencial para o desenvolvimento de ensaios clínicos de maior dimensão e para compreender melhor o potencial das células do sangue do cordão umbilical na medicina neonatal.
O potencial do sangue do cordão umbilical
O sangue do cordão umbilical é uma fonte de células com aplicações terapêuticas já estabelecidas em diferentes doenças do sangue e do sistema imunitário. Paralelamente, continuam a decorrer estudos que avaliam o seu potencial noutras áreas, incluindo a neurologia, a medicina regenerativa e a proteção do cérebro neonatal.
Investigações como o ALLO Trial demonstram que o conhecimento científico sobre estas células continua a evoluir e poderá abrir caminho a novas abordagens terapêuticas no futuro.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui o aconselhamento médico. O tratamento descrito encontra-se em investigação clínica e não corresponde atualmente a uma terapia aprovada para a prevenção de lesões cerebrais em bebés prematuros.
Artigo publicado pela equipa BebéVida, a 02 de julho de 2026.
Fonte: https://hudson.org.au/news/can-cord-blood-stem-cells-prevent-brain-damage-in-preterm-babies/


