A investigação com células estaminais do cordão umbilical continua a explorar novas possibilidades na medicina regenerativa.
Um estudo publicado em março de 2026 avaliou a segurança e os potenciais efeitos de células estaminais mesenquimais derivadas do cordão umbilical em pessoas com insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida.
O ensaio clínico PRIME-HFrEF analisou uma abordagem baseada em múltiplas administrações intravenosas destas células, procurando perceber não só a sua segurança, mas também possíveis efeitos na função cardíaca.
O que é a insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida?
A insuficiência cardíaca ocorre quando o coração não consegue bombear sangue de forma suficientemente eficaz para responder às necessidades do organismo.
Na insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, ou HFrEF (Heart Failure with Reduced Ejection Fraction), o ventrículo esquerdo apresenta uma capacidade de contração diminuída, reduzindo a quantidade de sangue bombeada em cada batimento.
Apesar da existência de diferentes terapêuticas para controlar a doença e melhorar o prognóstico, a investigação continua a procurar novas estratégias capazes de contribuir para a recuperação ou proteção do tecido cardíaco.
O estudo PRIME-HFrEF
O estudo PRIME-HFrEF foi um ensaio clínico randomizado, controlado por placebo e realizado em doentes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida.
Participaram 40 pessoas, distribuídas aleatoriamente entre o grupo que recebeu células estaminais mesenquimais derivadas do cordão umbilical e o grupo de controlo, que recebeu placebo.
Os participantes do grupo de tratamento receberam três infusões intravenosas de células mesenquimais do cordão umbilical, administradas com intervalos de seis semanas.
O acompanhamento decorreu durante aproximadamente 12 meses, permitindo aos investigadores avaliar a segurança das administrações e acompanhar diferentes indicadores relacionados com a função cardíaca.
Quais foram os principais resultados?
Um dos principais objetivos do estudo era perceber se a administração repetida destas células apresentava um perfil de segurança aceitável.
Os investigadores verificaram que a incidência de acontecimentos adversos graves não apresentou diferenças significativas entre o grupo tratado com células mesenquimais e o grupo placebo.
No entanto, foi observado um aumento transitório dos níveis de D-dímero após as infusões, um marcador associado à coagulação do sangue. Este resultado levou os investigadores a salientar a importância de continuar a avaliar os possíveis efeitos das infusões na coagulação em futuros estudos.
Relativamente à eficácia, não foi observada uma melhoria estatisticamente significativa da fração de ejeção do ventrículo esquerdo entre os participantes tratados com células mesenquimais e aqueles que receberam placebo.
Por outro lado, os investigadores identificaram uma melhoria significativamente superior num parâmetro relacionado com o volume sistólico final do ventrículo direito no grupo que recebeu as células.
Este resultado é considerado exploratório, mas levanta novas questões sobre o possível impacto das células mesenquimais do cordão umbilical na estrutura e função do coração.
Porque são estudadas células mesenquimais do cordão umbilical?
As células estaminais mesenquimais têm sido objeto de investigação em diferentes áreas da medicina regenerativa devido às suas propriedades biológicas.
Estas células apresentam capacidade de libertar diferentes moléculas e fatores envolvidos em processos como a modulação da resposta inflamatória, comunicação entre células e reparação dos tecidos.
O tecido do cordão umbilical constitui uma das fontes estudadas para obtenção de células mesenquimais, estando atualmente a ser investigado em diversas áreas terapêuticas.
No contexto cardiovascular, a investigação procura perceber se estas propriedades poderão contribuir para proteger o músculo cardíaco ou favorecer determinados mecanismos de recuperação.
O que significa este estudo para o futuro?
Os resultados do PRIME-HFrEF não demonstram que as células estaminais mesenquimais do cordão umbilical constituam atualmente um tratamento para a insuficiência cardíaca.
O estudo envolveu apenas 40 participantes e não demonstrou uma melhoria significativa do principal parâmetro de eficácia relacionado com a função do ventrículo esquerdo.
Ainda assim, os resultados obtidos ao nível do ventrículo direito, juntamente com os dados de segurança recolhidos ao longo do acompanhamento, fornecem informação importante para o desenvolvimento de novos estudos.
Ensaios clínicos com um maior número de participantes serão necessários para compreender melhor a segurança desta abordagem, definir os protocolos de administração mais adequados e perceber se poderão existir benefícios clínicos relevantes.
A investigação demonstra, mais uma vez, como as células provenientes do cordão umbilical continuam a ser estudadas em novas áreas da medicina, contribuindo para aumentar o conhecimento científico sobre o seu potencial futuro.


