A Esclerose Múltipla (EM) continua a ser uma das doenças neurológicas mais desafiantes da medicina moderna.
Afeta sobretudo adultos jovens, muitas vezes no início da vida profissional e familiar, e o seu curso é imprevisível. Os tratamentos disponíveis conseguem reduzir surtos e atrasar a progressão da doença, mas nenhum repara o dano já feito ao sistema nervoso. É aqui que as células do cordão umbilical têm vindo a ganhar espaço na investigação científica.
O que mudou nos últimos anos
O interesse por estas células não é novo, mas a evidência científica tem-se acumulado de forma consistente. Um dos primeiros marcos foi o relato, em 2013, de um doente com Esclerose Múltipla recorrente-remitente tratado com células mesenquimais de cordão umbilical e de medula óssea, que mostrou sinais de regeneração da bainha de mielina nas lesões cerebrais.
Nos anos seguintes, surgiram os primeiros ensaios clínicos estruturados. Um dos mais citados é o estudo do Stem Cell Institute, no Panamá (NCT02034188), publicado em 2018 no Journal of Translational Medicine. Neste ensaio de fase I/II, vinte doentes com diferentes formas de EM receberam sete infusões intravenosas de células mesenquimais de cordão umbilical ao longo de uma semana e foram acompanhados durante um ano, com ressonâncias magnéticas, escalas de incapacidade (EDSS) e testes funcionais. Os resultados mostraram segurança, sem eventos adversos graves, e sinais de benefício clínico que justificaram continuar a investigação.
Este não foi um caso isolado. Outros grupos, como o de Dahbour e colaboradores (2017), avaliaram também a segurança e a eficácia de células mesenquimais e de meios condicionados em doentes com EM, com resultados igualmente favoráveis do ponto de vista da segurança.
Mais recentemente, a investigação tem entrado numa fase mais robusta e regulada. Estão atualmente a decorrer ensaios como o NCT05003388, nos Estados Unidos, a testar a segurança da infusão intravenosa de células mesenquimais de cordão umbilical em doentes com EM, e o NCT05532943 (UMSC01), um estudo de fase I/IIa que combina administração intratecal e intravenosa destas células, com conclusão prevista para 2028. O facto de estarmos a passar de relatos de caso isolados para ensaios multicêntricos, com fases regulatórias bem definidas, diz muito sobre a maturação deste campo.
Porque fazem sentido as células do cordão umbilical
O cordão umbilical — tanto o sangue como o tecido — é uma fonte particularmente interessante de células estaminais por várias razões. As células mesenquimais aí presentes têm propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras bem documentadas, ou seja, ajudam a “acalmar” a resposta imunitária descontrolada que está na origem da Esclerose Múltipla. Ao contrário de outras fontes, como a medula óssea, a colheita do cordão umbilical não é invasiva para o dador nem para a mãe, e as células obtidas são geralmente mais jovens e com maior capacidade proliferativa.
Isto é também o que torna a preservação de células do cordão umbilical, no momento do nascimento, uma decisão com um potencial que vai muito além do que se pensava há uma década.
Uma palavra de rigor
Dito isto, é importante não criar expectativas desproporcionadas. Nenhum destes tratamentos está, para já, aprovado como terapêutica de rotina para a Esclerose Múltipla. Os ensaios existentes são, na sua maioria, pequenos, de fase inicial, e desenhados principalmente para avaliar segurança — a eficácia clínica sustentada ainda precisa de ser confirmada em estudos maiores, com grupos de controlo e seguimento mais longo. Uma revisão sistemática publicada em 2024 na Scientific Reports, que analisou nove ensaios clínicos randomizados sobre transplante de células estaminais em EM (a maioria com origem na medula óssea), reforça esta cautela: há resultados promissores, mas ainda com variabilidade relevante entre estudos.
É esta combinação — entusiasmo justificado pela ciência, mas rigor na forma como comunicamos o que ela já demonstra — que deve orientar qualquer discurso público sobre este tema, especialmente quando vem de quem trabalha todos os dias com estas células.
O caminho em aberto
A EM continua sem cura, mas o caminho que a investigação com células do cordão umbilical tem percorrido nos últimos doze anos é notável: de relatos de caso isolados a ensaios internacionais multicêntricos, com dados de segurança sólidos e sinais de eficácia que justificam continuar a investir.
Como laboratório que preserva estas células diariamente, sentimos a responsabilidade de acompanhar de perto esta evolução — e de a comunicar com honestidade, sem promessas prematuras, mas também sem subestimar o que está, de facto, a acontecer.
O futuro da EM pode não passar apenas por travar a doença, mas por reparar o que ela destrói. As células do cordão umbilical são, hoje, um dos caminhos mais sérios que a ciência está a explorar nessa direção.
Referências
- Riordan, N.H., Morales, I., Fernández, G., et al. (2018). Clinical feasibility of umbilical cord tissue-derived mesenchymal stem cells in the treatment of multiple sclerosis.Journalof Translational Medicine, 16, 57. Ensaio clínico NCT02034188.
- Hou, Z.L.,Liu, Y.,Mao, X.H., et al. (2013). Transplantation of umbilical cord and bone marrow-derived mesenchymal stem cells in a patient with relapsing-remitting multiple sclerosis. Cell Adhesion & Migration, 7, 404–407.
- Dahbour, S., Jamali, F., Alhattab, D., et al. (2017). Mesenchymal stem cells and conditioned media in the treatment of multiple sclerosis patients: clinical,ophthalmologicaland radiological assessments of safety and efficacy. CNS Neuroscience & Therapeutics, 23, 866–874.
- ClinicalTrials.gov. NCT05003388 — Safety of Cultured Allogeneic Adult Umbilical Cord Derived Mesenchymal Stem Cell Intravenous Infusion for the Treatment of Multiple Sclerosis.


